 RENATO SHAAN BERTATE
Médico & Psicoterapeuta
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..:: Colocações Organizacionais ::..
por Gunthard Weber & Brigitte Gross
Índice:
- Introdução
- O que é possível conseguir com
a colocação organizacional (CO)?
- Com quem é possível fazer colocações
organizacionais?
- Princípios do trabalho de colocação
organizacional
Introdução
O presente ensaio fala das primeiras experiências
colhidas com a transposição do trabalho de colocação
de Bert Hellinger (Weber, 1993; Hellinger, 1994) para sistemas e
organizações sociais maiores.
Parece temerário querer tirar conclusões
a respeito de um sistema, de sua história e de seu estado
atual para desenvolver idéias e soluções partindo
simplesmente da imagem interna de uma organização
que um homem colocou no espaço e da qual tomamos conhecimento
por meio das afirmações de representantes.
A explicação para tais fenômenos
parece ser essa: que o ser humano não percebe apenas elementos,
fatos e estados isolados, mas também padrões e estruturas
relacionais, isto é, redes de relações e constelações
de sistemas. Deve ser possível “memorizar” essas
informações complexas para que possam servir de esquemas
cognitivo-afetivos a comandar as ações (cf. Ciampi,
1997). Parece que, na colocação, as imagens inconscientes
podem ser restabelecidas em forma de imagens espaciais projetadas
para fora, de modo que surge a possibilidade de encenar novamente
certos contextos sistêmicos.
O segundo segredo está no fato de os representantes
(dos elementos do sistema que é colocado) por sua vez também
captarem de forma representativa a constelação exteriorizada
do sistema bem como a situação daquele que é
representado por eles, tendo uma percepção direta
de toda a situação. As nossas experiências com
colocações organizacionais e com o feedback de muitos
participantes durante os últimos três anos confirmam
a tese de que a reunião das colocações de imagens
de organizações torna possível a descoberta
de informações tão coerentes sobre estruturas,
dinâmicas e interações dentro de um sistema
que se torna perfeitamente viável desenvolver a partir delas
vigorosas imagens de soluções.
Essas imagens no espaço se fixam tão
bem porque o colocante as registra primeiro como observador externo
e, depois, diretamente em si próprio já que ele mesmo
se encontra dentro da imagem de solução. Os representantes,
os observadores participantes e o colocante ficam direta e simultaneamente
expostos às forças do sistema logo que o sistema todo
for colocado. Desta maneira forma-se um campo sinergético
onde todos podem experimentar numa sucessão imediata as antigas
realidades e as novas possibilidades. Assim, todo o sistema do grupo
de colocação é “infectado” primeiro
pelo dinamismo da constelação do problema e, depois,
pelo ambiente de solução.
A língua só consegue enfocar os
acontecimentos de forma sucessiva. Para chegar à mesma quantidade
de informações de uma colocação, seria
necessário gastar muito tempo em perguntas. Como no caso
da metáfora, a linguagem das imagens de uma colocação
se grava com muito mais intensidade do que uma descrição
falada, a não ser que a linguagem seja condensada em fórmulas
rituais destacadas que, desligadas da rotina diária, dirigem
seu apelo diretamente à alma, como é o caso das “frases
de força”. Quando os representantes no fim da colocação
dão vazão à sensação de alívio
dentro de um quadro de solução recuperando a sua força
no lugar que lhes é adequado, olhando com confiança
para o futuro, e quando o colocante passa a ocupar finalmente o
seu lugar, fica difícil para todos os envolvidos escapar
desse clima de estímulo contagiante voltado para a conquista
de soluções. Não que a descrição
e sensação dos velhos problemas fiquem assim definitivamente
afastadas, mas a experiência mostra que um quadro de soluções
bem fundamentadas volta a aparecer continuamente diante do olhar
da mente nos meses que seguem à colocação ativando
dessa maneira a percepção das possibilidades e de
novos caminhos para as soluções.
Outra observação prévia:
O fato de a Colocação Organizacional
(CO) ter se originado da colocação familiar desenvolvida
por Bert Hellinger poderia sugerir que existem ou até devam
existir muitas coisas em comum entre as famílias e as organizações.
Muitos costumam utilizar metáforas do ambiente familiar em
suas descrições de organizações, e existem
sobretudo equipes psico-sociais que tendem a assumir um clima familiar
passando inclusive por dificuldades típicas de famílias.
Por outro lado há às vezes membros de uma família
que se comportam como se a família fosse uma empresa. Ambas
as formas criam distúrbios.
Gostaríamos de alertar contra essa equiparação.
Defendemos um enfoque separado porque os dois sistemas sociais obedecem
em grande parte a regras e princípios de organização
diferentes. As organizações não são
comunidades de destino como as famílias. Mesmo que o trabalho
assalariado se tenha transformado em muitos países industrializados
numa entidade de identificação que avança fortemente
sobre o âmbito familiar onde pode vir a provocar conseqüências
de grande alcance existencial (veja p. ex. o desemprego); a grande
diferença é que as pessoas, querendo ou não,
são membros de uma família enquanto estão vivos
e até além da vida, enquanto o vínculo com
uma organização pode ser desfeito por ambos os lados.
É verdade que alguns princípios da colocação
familiar se aplicam também à colocação
organizacional, mas é igualmente importante não perder
de vista as diferenças que caracterizam uma organização.
I. O que é possível conseguir com a colocação
organizacional (CO)?
A colocação organizacional se presta
à obtenção de informações relevantes
sobre um sistema em tempo surpreendentemente curto. O tamanho do
sistema não tem grande importância. A colocação
pode girar por exemplo em torno da cooperação entre
várias empresas de um grupo, ou em torno da questão
porque uma equipe pequena tem de agüentar durante longo tempo
uma alta taxa de flutuação de seus membros.
- A colocação organizacional pode
ser usada pelo colocante para definir seu próprio lugar
e papel dentro do sistema em que trabalha, que ele lidera, supervisiona
ou assessora.
- Os observadores participantes podem assumir,
como representantes, diversos papéis, podem experimentar
os processos de uma perspectiva interna ou externa, aprendendo
aspetos importantes sobre a organização, talvez
até como “clandestinos”.
- A colocação organizacional pode
servir de subsídio para a tomada de decisões iminentes
(p. ex. questões sucessórias, preenchimento de
cargos e outras mudanças pessoais ou econômicas).
- A CO fornece indícios sobre relações
e estruturas (coalizões, concorrência, rejeição,
exploração, abuso de poder, dinâmica de
bode expiatório) e sobre hipotecas do passado (p. ex.
pela não menção dos méritos de um
co-fundador ou pelo esquecimento de colaboradores afastados
ou excluídos), informam sobre a percepção
que se tem do desempenho dentro de um sistema, revelam confusões
de contexto (p. ex. entre relações particulares
e de serviço ou conchavos que ultrapassam os níveis
hierárquicos).
- As colocações se prestam de modo
especial para empresas familiares porque podem indicar que a
solução de um problema depende mais da família
dos proprietários ou dos executivos da empresa ou se
existe a necessidade de mudanças em ambas as áreas.
- Colocações organizacionais informam
sobre falta de apoio e de recursos sobre riscos de saúde
sobre a orientação de uma organização
em tarefas, no cliente ou em objetivos e sobre a energia e o
clima dentro de uma grupo de trabalho.
- Com a ajuda de CO é possível
representar determinados cenários (p. ex. piora da situação
ou diferentes tipos de desempenho).
Estas são apenas algumas situações-modelo
ou questionamentos em que as colocações organizacionais
se revelaram úteis. O próprio Grupo de CO já
é um ótimo modelo de tratamento e cooperação
num clima de trabalho em que há respeito, incentivo e apoio
mútuos.
II. Com quem é possível fazer colocações
organizacionais?
A CO não serve para sistemas formados ocasional
ou provisoriamente. Mesmo com funcionários de uma única
empresa ou instituição devem ser usados com muito
cuidado. A observação mútua é muito
mais forte, e as conseqüências das palavras e das colocações
têm mais peso para os funcionários, de modo que costumam
prevalecer considerações de precaução
e estratégia. Muitas vezes, os elementos de um sistema dispõem
de grande quantidade de informações prévias
que podem distorcer a percepção das sensações
que fazem parte de um lugar de colocação. Diferenças
de nível hierárquico e relações momentaneamente
carregadas também podem distorcer as manifestações.
A CO pode ser útil mesmo nos casos em que
o ambiente da empresa é marcado por respeito mútuo,
um clima de cooperação e dedicação inovadora
e aberta a experiências.
Há pouco realizamos seminários desse
tipo. As nossas primeiras experiências nesses contextos são
animadoras, mas é necessário aguardar o feedback de
médio e longo prazo. Nesse caso precisa-se trabalhar com
muito cuidado e atenção redobrada para tomar em consideração
e abordar, conforme o caso, o grande número de conseqüências,
de interações e de efeitos secundários. É
relativamente fácil fazer esculturas organizacionais nas
quais um elemento da organização coloca os seus colegas
do modo que ele percebe o seu interrelacionamento. Mas assim se
revelam antes de tudo relações atuais (p. ex. proximidade/distância
ou simpatia/antipatia) sem produzir, segundo a nossa experiência,
o mesmo efeito de confronto e alívio da CO.
Os melhores resultados obtivemos com grupos de
CO em que foram reunidos elementos de várias áreas
e organizações que não se conheciam antes.
Nesse caso, todos se sentem protegidos e livres e têm o mesmo
valor. Todos experimentam um amplo leque de constelações
e, por isso mesmo, uma grande gama de soluções possíveis.
Para esse tipo de seminário parece mais indicada a duração
de dois a três dias.
III. Princípios do trabalho de colocação
organizacional
Passamos a descrever alguns princípios básicos
que orientam o nosso trabalho.
1. O direito de vínculo
Nas organizações, todos têm
o mesmo direito de fazer parte. Mas esse direito acarreta também
a obrigação de prestar uma contribuição
condizente com a respectiva posição dentro do sistema
no sentido de conservar e renovar a organização
(veja abaixo). Normalmente, a organização cuida
por sua vez de seus funcionários incentivando-os, e os
funcionários se mostram leais à organização
e comprometidos com as metas desta. Se um dos dois lados lidar
levianamente com a vinculação do outro (p. ex. praticando
um ‘outsourcing’ insensível ou adotando uma
mentalidade de receber tudo da empresa) surge uma espécie
de hipoteca na organização que onera a relação
de confiança dos funcionários e sua dedicação
e vice-versa.
2. Dar e receber
Nas organizações existe portanto
uma espécie de contabilidade (Boszomenyi-Nagy, 1981) sobre
o que um tem dado ou negado ao outro. Balanços desequilibrados
fomentam a insatisfação e sentimentos de culpa exigindo
um ajuste. Quem sofreu injustiças ganha poder, e quem costuma
dar mais do que receber promove a ruptura das relações.
Tanto o assistencialismo exagerado quanto a exploração
têm as suas conseqüências.
A troca do dar e receber cria também
nesses sistemas, vínculos e obrigações recíprocas
entre os funcionários e a organização (“Meu
avó foi o número 143 na Bosch e eu também
trabalho lá”). Em algumas empresas tradicionais,
por exemplo, até há poucos anos era difícil
ser dispensado um funcionário que se mostrasse leal para
com a empresa, mesmo que cometesse alguns deslizes mais graves.
Trata-se no entanto de um vínculo que é menos forte
do que nas famílias. Quanto maiores e impessoais se tornarem
as organizações (por exemplo os grupos multinacionais)
e quanto maior for a mobilidade exigida, tanto menos esses processos
serão considerados por ambas as partes.
3. Tem preferência quem está mais tempo
na empresa
Quando se trata de funcionários do mesmo
nível, tem direitos mais antigos aquele que está
há mais tempo na empresa. Os que chegaram depois dele deverão
respeitar esses direitos. Esse princípio se aplica sobretudo
aos iniciadores e fundadores da organização. Mesmo
que a preferência seja das pessoas hierarquicamente superiores,
convém a estas que saibam apreciar a experiência
e os méritos daqueles que chegaram antes delas na organização.
Do contrário, as novas vassouras varrerão com menos
eficiência.
4. A liderança têm prioridade
As organizações têm necessidade
de liderança. Mas a liderança precisa ser justificada
por meio de resultados e desempenho adequado na respectiva função.
Só assim o dirigente passa a ter autoridade e estima em
sua posição. Mitos do tipo “Somos todos iguais”
só criam insegurança e conflitos de relacionamento.
Nesse caso, a equipe fica preocupada em saber como o chefe gostaria
de decidir, ou surgem longas discussões infrutíferas
quando é necessário tomar uma decisão. Num
grupo de iguais, cabe a prioridade ao iniciador. O responsável
pelas finanças da organização que cuida da
sobrevivência econômica do sistema tem prioridade
sobre os demais dirigentes. Assim, num hospital cabe a prioridade
ao diretor administrativo e não aos médicos-chefes.
5. É preciso reconhecer o desempenho
Quando alguns funcionários, apesar de
posição e remuneração iguais, têm
competências ou habilidades especiais que garantem o sucesso
e o desenvolvimento da organização, é necessário
que se dê a estes reconhecimento especial e incentivo pelas
contribuições prestadas, para que possam continuar
na organização.
Nas colocações, esse fato não
costuma manifestar-se em posições especiais e sim
por meio de observações de reconhecimento da parte
de dirigentes (p. ex. “Reconheço o seu empenho e
a sua contribuição para o nosso sucesso e fico feliz
em poder continuar trabalhando com você.”) Quando
alguém se sacrificou pela organização a ponto
de perder até a vida por ela, convém manter viva
a sua lembrança.
6. Ir embora ou ficar
Em colocações organizacionais também
surge freqüentemente a pergunta: alguém precisa ir
embora ou pode ficar? Pode ficar quem precisa da organização
e que corresponde ao posto que ocupa e à função
que exerce. Quem não precisa mais da organização
pode perder alguma chance interessante se continuar dentro dela.
Às vezes é necessário também que alguém
vá embora porque prejudicou sistemática ou egoisticamente
outros dentro do sistema. Caso ele não vá embora
ou não seja mandado embora, surgem lutas, problemas relacionais,
desmotivação e perda de confiança. Funcionários
excluídos, indevidamente dispensados, expulsos ou não
promovidos por motivos não técnicos costumam emperrar
ou perturbar o clima da empresa, às vezes são representados
e imitados por seus sucessores.
Às vezes fica claro que um nível
hierárquico se tornou supérfluo ou que existem funcionários
demais para o trabalho a ser feito. Nesse caso é possível
verificar por exemplo que a respectiva equipe encontra a solução
criativa, porém improdutiva, de se revezarem em faltas
por motivo de doença. Por outro lado, a colocação
pode mostrar também que existem postos sobrecarregados
de funções.
Nos casos de demissão da organização
é importante tanto para a organização quanto
para o funcionário em questão que o desligamento
se realize num clima de compreensão e respeito mútuo,
para que a organização continue sem ter problemas
e o ex-funcionário chegue bem em seu próximo emprego.
Muitas vezes se enfraquece quem volta à organização
da qual saiu.
Bons rituais de boas-vindas e de despedida facilitam
esses processos nas organizações. Nas colocações,
esses processos podem ser manifestados por exemplo pelo uso de
determinadas frases.
7. Organizações são sistemas voltados
para tarefas
Existem muitos grupo de trabalho que perderam
de vista grande parte de suas tarefas. Os funcionários
começam então a se ocupar consigo próprios,
com problemas de relacionamento ou com queixas contra “os
de cima” e a situação. Quando o coordenador
de um grupo de CO chega a ter essa impressão, é
importante confiar a alguém o cuidado com a tarefa, a meta
ou os clientes.
8. Fortalecimento ou enfraquecimento?
Na colocação de uma organização
fica logo patente se alguém ocupa seu lugar com energia
boa e tranqüila ou se está enfraquecido. No lugar
certo e adequado, a pessoa se sente segura, despreocupada e com
boa energia. Por isso é tão importante encontrar
esse lugar. Em postos usurpados, as pessoas têm fantasias
de grandeza e de portam com arrogância. Em postos que enfraquecem,
as pessoas não se sentem valorizadas, não se dão
valor, ou falta-lhes apoio. Sensações de fraqueza
reveladas por colocantes em colocações organizacionais
estão freqüentemente ligadas a padrões ultrapassados
e ao contexto de destinos familiares da origem.
9. O novo e o velho
Novas idéias são aceitas com dificuldade
em organizações que não sabem dar valor àquilo
que existe atualmente e que geralmente garantiu bons resultados
durante longo tempo. É melhor prestar primeiro reconhecimento
ao que existe, em vez de atacar logo o antigo para impor as suas
próprias idéias e planos. O recém-chegado
deve primeiro procurar orientar-se vendo aquilo que é válido
dentro do sistema e inserindo-se nele. O mesmo vale também
para grupos de projeto. Mas não é necessário
mostrar a todo momento o quanto se estima o antigo. Trata-se sobretudo
de uma atitude interior. Os convencidos atrapalham a sua própria
vida e a dos outros na organização. Em geral não
ficam por muito tempo. Com um procedimento desses, até
reais competências podem ser mal empregadas provocando rupturas.
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