 RENATO SHAAN BERTATE
Médico & Psicoterapeuta
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..:: Para que o amor dê certo ::..
por Bert Hellinger
Índice:
- Introdução
- Ordem e amor
- Tomar a vida
- E algo que é próprio
- O mesmo
- Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão
- O tamanho da Criança
- Receber e exigir
- A equiparação
- O grupo familiar
- O direito de pertencer
- Os excluídos são representados
- A solução
- A imagem mágica no mundo e suas conseqüências
- Homens e Mulheres
- O vínculo
- A ordem de precedência
- Dois modos de ser feliz
Introdução
Muita gente julga que o amor tem o poder de superar
tudo, que é preciso apenas amar bastante e tudo ficará
bem. Contudo, a experiência mostra que isto não é
verdade. Muitos pais são forçados a experimentar que,
apesar do amor que dão a seus filhos, estes não se
desenvolvem como eles esperavam. São forçados a ver
seus filhos adoecerem, se drogarem ou suicidarem, apesar de todo
o amor que lhes dão. Para que o amor dê certo, é
preciso que exista alguma outra coisa ao lado dele. É necessário
que haja o conhecimento e o reconhecimento de uma ordem oculta do
amor.
Ordem e amor
O amor preenche o que a ordem abarca.
O amor é a água, a ordem é o jarro.
A ordem ajunta,
o amor flui.
Ordem e amor atuam juntos.
Como uma linda canção obedece
às harmonias,
assim o amor obedece à ordem.
Assim como o ouvido dificilmente se acostuma
às dissonâncias, mesmo quando são explicadas,
assim também nossa alma dificilmente se acostuma
ao amor sem ordem.
Muita gente trata essa ordem
como se ela fosse uma opinião
que se pode ter ou mudar à vontade.
Contudo, ela nos preexiste.
Ela atua, mesmo que não a entendamos.
Não é inventada, mas encontrada.
É por seus efeitos que a descobrimos,
Como descobrimos o sentido e a alma.
Muitas dessas ordens são ocultas. Não
podemos sondá-las. Elas atuam nas profundezas da alma, e
freqüentemente as encobrimos com pensamentos, objeções,
desejos e medos. É preciso tocar no fundo da alma para vivenciar
as ordens do amor.
Tomar a vida
Disse primeiro alguma coisa sobre as ordens do
amor entre pais e filhos, do ponto de vista da criança, isto
é, do filho para com seus pais. Aqui menciono algumas verdades
banais. Elas são tão óbvias que eu quase me
envergonho de citá-las. Não obstante, são freqüentemente
esquecidas.
O primeiro ponto é que os pais, ao darem
a vida, dão à criança, nesse mais profundo
ato humano, tudo o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar,
disso nada podem tirar. Na consumação do amor, o pai
e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence portanto
à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe
de seus pais. Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não
exista. A ela, também, nada pode acrescentar.
O filho é os seus pais. Portanto, pertence
à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele
diga sim a seus pais como eles são, sem qualquer outro desejo
e sem nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através
dos seus pais, da forma como eles são.
Esse ato de tomar a vida é uma realização
muito profunda. Ele consiste em assumir minha vida e meu destino,
tal como foram dados através de meus pais. Com os limites
que me são impostos. Com as possibilidades que me são
concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa família,
no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.
Essa aceitação da vida é
um ato religioso. É um ato de despojamento, uma renúncia
a qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido
através de meus pais. Essa aceitação vai muito
além dos pais. Preciso olhar para além deles, para
o espaço distante de onde se origina a vida e me curvar diante
de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a
esse mistério e me ajusto a ele.
O efeito desse ato pode ser comprovado na própria
alma. Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais
e dizendo-lhes: “Eu tomo esta vida pelo preço que me
custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo
o que lhe pertence, com seus limites e oportunidades”. Nesse
exato momento, o coração se expande. Quem consegue
realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.
Como contraprova, pode-se igualmente imaginar
o efeito da atitude oposta, quando uma pessoa diz: “Eu gostaria
de ter outros pais. Não os suporto como eles são”.
Que atrevimento! Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não
pode estar em paz consigo mesmo.
Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente
seus pais, algo de mal poderá infiltrar-se nelas. Assim,
não se expõem à totalidade da vida. Com isto,
contudo, perdem também o que é bom. Quem assume seus
pais como eles são, assume a plenitude da vida como ela é.
E algo que é próprio
Mas aqui existe ainda um mistério que não
posso justificar. Com efeito, cada um experimenta que também
tem em si algo de único, algo que é inteiramente próprio,
irrepetível e não pode ser derivado de seus pais.
Pode ser algo de leve ou de pesado, algo de bom ou de mau. Isto
não podemos julgar.
Aquele que encara o mundo e sua própria
vida com olhos desimpedidos pode ver que tudo o que faz obedece
a uma ordem. Tudo o que ele faz ou deixa de fazer, tudo o que apóia
ou combate, ele realiza porque foi encarregado de um serviço
que ele mesmo não entende. Aquele que se entrega a tal serviço
experimenta-o como uma tarefa ou como um chamado, que não
se baseia no seu merecimento ou na sua culpa (quando é algo
de pesado ou cruel). Ele foi simplesmente tomado a serviço.
Quando contemplamos o mundo desta maneira, cessam
as diferenças habituais. Costumo descrever isto como os seguintes
versos:
O mesmo
A brisa sopra e sussurra,
A tempestade varre e se enfurece,
E no entanto
é o mesmo vento,
o mesmo canto.
A mesma água
nos tira a sede e nos afoga,
nos carrega e nos sepulta.
Todo ser vivo se desgasta,
se mantém vivo e se aniquila.
Em ambos os casos
a mesma força o impele.
É ela que conta.
A quem servem então as diferenças?
Falei até aqui sobre a ordem fundamental
da vida. Foi-nos concedido termos pais e sermos filhos. E temos
também algo de próprio.
Aceitar tudo o mais que nossos pais
nos dão
Na verdade, os pais não nos dão apenas
a vida. Dão-nos também outras coisas: alimentam-nos,
educam-nos, cuidam de nós e assim por diante. Convém
à criança que ela tome tudo isso da forma como recebe.
Quando a criança o aceita de bom grado, costuma bastar. Existem
exceções que todos conhecemos mas, via de regra, é
suficiente. Pode não ser sempre o que desejamos, mas é
o bastante.
Nesse particular, pertence à outra ordem
que o filho diga a seus pais: “Eu recebi muito. Sei que é
muito, é o bastante. Eu o tomo com amor”. Com isto,
o filho se sente pleno e rico, seja qual for a situação.
Então ele acrescenta: “o resto, eu mesmo faço”.
Isto também é um belo pensamento. Finalmente, o filho
ainda pode dizer aos pais: “E agora eu os deixo em paz”.
O efeito destas frases vai muito fundo: agora
o filho tem os pais e os pais têm o filho. Pais e filho estão
simultaneamente separados e felizes. Os pais concluíram sua
obra e a criança está livre para viver sua vida, com
respeito pelos pais mas sem dependência.
Imaginem agora a situação oposta,
quando o filho diz aos pais: “O que vocês me deram foi
errado e foi muito pouco. Vocês ainda estão me devendo
muito”. O que esse filho tem de seus pais? Nada. E o que têm
dele os pais? Igualmente nada. Esse filho não consegue desprender-se
dos pais. Sua censura e sua reivindicação o vinculam
a eles, mas de uma forma tal que ele não os tem. Sente-se
vazio, pequeno e fraco.
Esta seria a segunda lei do amor entre seus filhos
e pais.
O tamanho da criança
Existe algo que os pais adquirem por mérito
pessoal. Se a mãe, por exemplo, tem um dom especial –
suponhamos que ela seja pintora e pinte quadros maravilhosos –
então isso pertence a ela e não ao filho. Este não
pode reivindicar que seja também um bom pintor, a não
ser que o tenha merecido por dotação própria
e dedicação pessoal.
A mesma coisa vale para a riqueza dos pais. O
filho não tem o direito de reivindicá-la, como acontece
no caso da herança. O que ele vier a receber será
puro presente.
Isto vale ainda para a culpa pessoal dos pais.
Também esta pertence exclusivamente a eles. Com freqüência,
uma criança presume, por amor, tomar sobre si essa culpa,
carregá-la em nome dos pais. Também isto vai contra
a ordem. A criança se arroga um direito que não lhe
compete. Quando os filhos querem expiar pelos pais, estão
se julgando superiores a eles. Os pais passam a ser tratados como
crianças, cuidadas por seus próprios filhos, que assumem
o papel de pais.
Uma senhora, que recentemente participou de um
grupo meu, tinha um pai cego e uma mãe surda. Os dois se
completavam bem, mas a filha achava que devia cuidar deles. Quando
montei a constelação de sua família, ela se
comportou como se fosse uma pessoa grande. Porém sua mãe
lhe disse: “Esse assunto com seu pai eu resolvo sozinha”.
E o pai lhe disse: “Esse assunto com sua mãe eu resolvo
sozinho. Não precisamos de você para isso”. Aquela
senhora ficou muito desapontada, porque foi reduzida ao seu tamanho
de criança.
Na noite seguinte, ela não conseguiu dormir.
Aliás, ela sentia uma grande dificuldade para adormecer.
Perguntou-me se eu podia ajudá-la. Respondi: “Quem
não consegue dormir talvez esteja pensando que precisa vigiar”.
Contei-lhe então a história de Borchert sobre o menino
de Berlim que, ao terminar a guerra, tomava conta de um irmão
morto, para que os ratos não o comessem. O menino estava
esgotado, porque achava que devia ficar vigiando. Nisto, passou
por ali um senhor simpático que lhe disse: “Mas os
ratos dormem à noite”. E a criança adormeceu.
Na noite seguinte, aquela senhora dormiu melhor.
Portanto, a ordem do amor entre filhos e pais
estabelece, em terceiro lugar, que respeitemos o que pertence pessoalmente
a nossos pais e o que eles podem e devem fazer sozinhos.
Receber e exigir
A ordem do amor entre pais e filhos envolve ainda
um quarto elemento. Pais são grandes, filhos são pequenos.
Assim, o certo é que os pais dêem e os filhos recebam.
Pelo fato de receber tanto, o filho sente a necessidade de pagar.
Dificilmente suportamos quando recebemos algo sem dar algo em troca.
Mas, em relação a nossos pais, nunca podemos compensar.
Eles sempre nos dão muito mais do que podemos retribuir.
Alguns filhos querem escapar da pressão
de retribuir e dos sentimentos de obrigação e de culpa.
Dizem então: “Prefiro nada receber, assim não
sinto obrigação nem culpa”. Esses filhos se
fecham para os pais e nessa mesma medida, sentem-se pobres e vazios.
Pertence à ordem do amor que os filhos digam: “Eu recebo
tudo com amor”. Assim, irradiam contentamento para os pais,
e estes percebem a felicidade deles. Esta forma de receber é
simultaneamente uma compensação, porque os pais se
sentem respeitados por essa aceitação amorosa. Com
isso, os pais dão com um prazer redobrado.
Quando, porém, os filhos dizem: “Vocês
têm que me dar mais”, o coração dos pais
se fecha. Por causa dessa exigência do filho, eles não
podem mais cumulá-lo de amor. É esse o efeito de tais
reivindicações. Esse filho, por sua vez, mesmo quando
receber alguma coisa, não conseguirá tomar o que exigiu.
A equiparação
A verdadeira equiparação entre o
dar e o receber na família consiste em passar adiante o dom.
Quando a criança diz: “Eu tomo tudo, e quando eu crescer,
eu darei por minha vez”, os pais ficam felizes. A criança,
no seu dar, não olha para trás, mas para frente. Os
pais fizeram o mesmo. Eles receberam de seus pais e deram a seus
filhos. Justamente pelo fato de terem recebido tanto, sentem-se
pressionados a dar, e podem igualmente fazê-lo.
Até aqui, falei das ordens do amor entre
filhos e pais.
O grupo familiar
Entretanto, nossa vinculação não
se limita aos pais. Pertencemos também a um grupo familiar,
a uma estirpe, um sistema maior. O grupo familiar se comporta como
se fosse dirigido por uma instância comum e superior. Ele
é comparável, a um bando de pássaros em formação.
De repente, todos mudam a direção do vôo, como
se tivessem sido movidos por uma força comum.
No grupo familiar, essa instância superior
funciona quase como um comando interior (Gewissen), partilhado
por todos e que atua de modo amplamente inconsciente. Reconhecemos
as ordens do amor a que obedece pelos bons efeitos de sua observância
e pelos maus efeitos de sua violação;
Quero citar, para começar, o círculo
de pessoas que são abarcadas e dirigidas por esse comando
interior, cuja amplitude podemos reconhecer por seus efeitos. Estão
nele incluídos:
- Todos os filhos, inclusive os que morreram ou foram abortados;
- Os pais e todos os seus irmãos;
- Os avós;
- Eventualmente, algum bisavô ou até mesmo um antepassado
ainda mais distante, principalmente se teve um destino mau;
- Incluem-se ainda pessoas sem relação de parentesco,
a saber, aquelas de cuja morte ou infelicidade pessoas da família
se beneficiaram, como são, por exemplo, ex-parceiros dos
pais e dos avós.
O direito de pertencer
No interior de cada grupo familiar vigora uma ordem
básica, uma lei fundamental: todas as pessoas do grupo
familiar possuem o mesmo direito de pertencer. Em muitas famílias
e grupos familiares, determinados membros são excluídos.
Alguns dizem, por exemplo: “Esse tio não vale nada,
ele não pertence a nós”, ou então: “Dessa
criança ilegítima nada queremos saber”. Com
isso, recusam a essas pessoas o direito de pertencer.
Existem também os que dizem: “Sou
católico, você é evangélico. Como católico,
tenho mais direito de pertencer que você”. Ou inversamente:
“Como protestante, tenho mais direito, porque minha fé
é mais verdadeira. Você é menos crente do que
eu, portanto tem menos direito de pertencer”. Isto não
é hoje tão freqüente como antigamente, mas ainda
acontece.
Acontece ainda, quando um filho morre prematuramente,
seus pais darem o nome dele ao filho seguinte. Com isto, estão
dizendo ao primeiro: “Você não pertence a família.
Temos um substituto para você”. Assim o filho morto
não conserva nem mesmo o próprio nome. Com freqüência,
não é mais contado nem mencionado. Assim lhe é
negado e retirado o direito de pertencer.
O excesso moral de alguns, que se sentem melhores
e superiores a outros, na prática significa dizer-lhes: “Tenho
mais direito de pertencer que você”. Ou, quando alguém
condena uma pessoa ou a considera má, praticamente está
lhe dizendo: “Você tem menos direito de pertencer do
que eu”. “Bom” significa então: “Tenho
mais direitos” e “mau” significa: “Você
tem menos direitos”.
Os excluídos são representados
Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo
direito de pertencer, não tolera violação.
Onde isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente
de compensação, que faz com que os excluídos
ou desprezados sejam mais tarde representados por algum outro membro
da família, sem que essa pessoa tenha consciência disso.
Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona
com outra mulher e diz à própria esposa: “Não
quero mais saber de você”, inventando falsas razões
e cometendo injustiça contra ela e depois se casa com outra
mulher e tem filhos com ela, sua primeira mulher será representada
por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá
o pai com o mesmo ódio da mulher rejeitada, sem ter consciência
dessa representação. Aqui atua uma força secreta
de compensação, para que a injustiça feita
à primeira pessoa seja vingada por uma segunda.
Muitos acontecimentos infelizes na família,
tais como desvios de comportamento dos filhos, doenças, acidentes
e suicídios, acontecem porque um filho inconscientemente
representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso
se revela ainda uma outra propriedade da instância superior.
Ela faz reinar justiça para com os antecessores e injustiça
para com os sucessores.
A solução
A solução de tal emaranhamento torna-se
possível quando a ordem básica é restabelecida,
isto é, quando os excluídos voltam a ser acolhidos
e respeitados. Neste caso, por exemplo, a segunda mulher deveria
dizer à primeira: “Eu estou com este homem às
custas de você. Eu honro isto e reconheço que lhe causei
injustiça. Por favor, queira bem a mim e aos meus filhos”.
Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Pois com isso
está sendo reconhecido o seu direito de pertencer.
A solução exige também que
a menina que imita essa mulher lhe diga interiormente: “Eu
pertenço apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo
que se passou entre vocês adultos não tem nada a ver
comigo”. Ela diz a seu pai: “Você é meu
pai e eu sou sua filha. Por favor, olhe-me como sua filha”.
Então o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher
nem defrontar-se com o eventual ódio ou tristeza dela. E
no case de ainda amá-la, não precisará olhar
sua filha como sua amante, mas apenas como sua filha. Assim a filha
pode ser a filha e o pai pode ser o pai.
A criança precisa também dizer ao
pai: “Esta aqui é a minha mãe. Com sua primeira
mulher não tenho nada a ver. Eu tomo esta aqui como minha
mãe. Ela é para mim a certa”. E então
a criança precisa dizer à mãe: “Com a
outra mulher não tenho nada a ver”.
De outra forma, essa criança se tornará
uma rival da mãe e não poderá ser filha. Talvez
a mãe veja nela inconscientemente a outra mulher. Nesse caso,
mãe e filha entram em conflito como se fossem duas amantes
rivais. Mas quando a criança diz: “Você é
minha mãe e eu sou sua filha; com a outra não tenho
nada a ver; eu tomo você como minha mãe”, então
a ordem é restabelecida.
Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados.
Quando, por exemplo, numa família, um filho morre prematuramente,
os filhos sobreviventes carregam muitas vezes um sentimento de culpa
pelo fato de estarem vivos enquanto seu irmão está
morto. Acreditam que, por estarem vivos, possuem uma vantagem sobre
o irmão falecido. Então querem compensar isto, por
exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo querendo morrer,
sem que saibam por quê.
Aqui, pertence à ordem do amor que cada
um diga interiormente ao irmão morto: “Você é
meu irmão (minha irmã). Eu respeito você como
meu irmão (minha irmã). Você tem um lugar em
meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da
forma como lhe aconteceu, e digo sim ao meu destino, da forma como
me tocou”. Estão a criança morta é respeitada
e a outra pode permanecer viva sem sentimento de culpa.
A imagem mágica do mundo e
suas conseqüências
Por trás da necessidade de compensação,
que faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a saber, que posso
salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que eu também
tome algo de pesado sobre mim. É o caso da criança
que diz à mãe gravemente doente: “Antes adoeça
eu do que você. Antes morra eu do que você”. Ou
ainda, quando a mãe quer abandonar a vida, um filho se suicida,
para que ela possa ficar viva.
Um exemplo disto é a magreza compulsiva.
O anoréxico vai se tornando cada vez menor, desaparece, por
assim dizer, até a morte. Em sua alma, essa criança
está dizendo a seu pai ou a sua mãe: “Antes
desapareça eu do que você”. Aqui atua um amor
profundo. Mas quando a criança morre, qual é o efeito
desse amor? Ele é totalmente inútil.
Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão,
faço que olhe nos olhos do pai ou da mãe e diga: “Antes
desapareça eu do que você”. Quando os encara
nos olhos a ponto de realmente os ver, ela não consegue dizer
essa frase, porque percebe que o pai ou a mãe não
aceitará isso dela. È que o amor mágico desconhece
o fato de que também a outra pessoa ama e recusaria isso,
independentemente da inutilidade de tal amor.
Quando a mãe morre ao dar à luz
um filho, é muito difícil para essa criança
tomar a sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos
e dizer: “Mamãe, mesmo por este alto custo eu tomo
esta vida e faço algo de bom com ela em sua memória.
Você precisa saber que não foi em vão”.
Isto é amor, num nível mais elevado. Isto exige o
abandono da fantasia mágica de poder interferir no destino
de outra pessoa e mudá-lo. Exige a passagem de um amor que
faz adoecer para um amor que cura.
A fantasia do amor mágico está associada
a uma presunção, a um sentimento de poder e de superioridade.
A criança realmente acha que, com sua doença e sua
morte, pode salvar da morte a outra pessoa. Renunciar a essa idéia
exige humildade.
Até aqui falei da ordem do amor na relação
entre filhos e pais.
Homens e Mulheres
Quero também dizer mais alguma coisa sobre
a ordem do amor na relação do casal. Muitos se envergonham
disso, como se fosse algo que devesse ser ocultado. Aquilo que diferencia
os homens das mulheres, que realmente os diferencia, é escondido.
Ou, por outras palavras, é protegido; pois é o lugar
onde cada um é mais vulnerável. É o lugar próprio
da vergonha. Vergonha significa, neste contexto, que eu guardo alguma
coisa, para que nada de mau aconteça. E é o lugar
onde nos sentimos mais entregues.
Alguns falam depreciativamente do instinto sexual
e esquecem que ele é a força real e mais profunda,
que une e conserva tudo, que toma cada pessoa a seu serviço,
sem que ela possa se defender. Pela pura razão, ninguém
se casaria ou teria filhos. Só esse instinto consegue isso.
É através dele que estamos em sintonia mais profunda
com a alma do mundo. Esse instinto é o que existe de mais
espiritual. Todo entendimento e toda consideração
racional empalidecem diante da força que atua por detrás
desse instinto.
A ordem do amor entre homem e mulher exige portanto,
em primeiro lugar, que o homem admita que lhe falta a mulher e que
ele, por si só, jamais poderá alcançar o que
ela tem. Exige igualmente que a mulher admita que lhe falta o homem,
e que ela, por si só, jamais poderá alcançar
o que ele tem. Então ambos se experimentam como incompletos
e o admitem.
Quando o homem admite que precisa da mulher e
que só se torna homem através dela, e quando a mulher
admite que precisa do homem e só se torna uma mulher através
dele, então essa carência os liga um ao outro, justamente
pelo fato de a admitirem. Então o homem recebe o feminino
como presente da mulher, e a mulher recebe o masculino como presente
do homem.
Imaginem agora um homem que desenvolve em si o
feminino e uma mulher que desenvolve em si o masculino, como muitos
consideram ideal. Se esse homem quiser se ligar a essa mulher, qual
será a profundidade dessa relação? No fundo,
eles não precisam um do outro. Inversamente, quando o homem
renuncia ao feminino e a mulher ao masculino, então eles
precisam um do outro e isto os mantém juntos.
O vínculo
Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente
como tais, a consumação de seu amor cria um vínculo.
Esse vínculo é indissolúvel. Isto nada tem
a ver com a doutrina moral da Igreja sobre a indissolubilidade do
matrimônio. A realização do amor cria uma ligação,
independentemente do casamento e de qualquer rito externo.
A existência de uma tal ligação
é percebida pelos seus efeitos. Por exemplo, o homem que
se separa levianamente de uma parceira a quem estava vinculado pela
consumação do amor, via de regra não conseguirá
conservar outra parceira num novo relacionamento. Pois esta percebe
o vínculo dele com a parceira anterior, e não ousa
assumi-lo plenamente. Quando um homem abandona uma mulher e se casa
outra vez, sua segunda mulher talvez se considere melhor que a primeira
e diga: “Agora eu o tenho para mim”. Ela entretanto
o perderá. Nesse próprio triunfo o perde, pois reconhece
o vínculo desse homem com sua primeira mulher. Então
ele não o assumirá completamente. Nas constelações
familiares, pode-se perceber que uma segunda mulher se distancia
um pouco do homem. Ela não ousa colocar-se perto dele, pelo
fato de não ser sua primeira ligação, mas a
segunda.
A profundidade de um tal vínculo pode ser
avaliada pelo seu efeito. A separação do primeiro
amor é a mais difícil de se conseguir. É a
mais dolorosa. Quando uma segunda ligação se desfaz,
a dor é menor. Numa terceira, é ainda menor.
Essa ligação não é,
porém, sinônimo de amor. O amor pode ser pequeno e
o vínculo profundo. Inversamente, o amor pode ser profundo
e a ligação pequena. O vínculo se origina do
ato sexual. Por isto, ele também nasce por ocasião
de um incesto ou um estupro. Para que mais tarde uma nova ligação
seja possível, é preciso que a primeira seja corretamente
resolvida. Ela é resolvida quando é reconhecida e
quando é honrado o respectivo parceiro. Quem amaldiçoa
o primeiro vínculo impede uma ligação ulterior.
A ordem de precedência
O fruto do amor entre o homem e a mulher são
os filhos. Também aqui é importante observar uma ordem
do amor, uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta
pelo começo. Isto significa que o que vem antes tem, via
de regra, precedência sobre o que vem depois. Numa família,
existe primeiro o casal homem-mulher. Seu amor funda a família.
Por isso, seu amor como homem e mulher tem precedência sobre
tudo o que vem depois: por conseguinte, sobre seu amor de pais por
seus filhos. Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos
atraem sobre si toda a atenção. Então os pais
não são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto,
os filhos não se sentem bem.
Quando a relação do casal tem prioridade,
o pai diz a seu filho: “Em você, eu respeito e amo também
sua mãe”. E a mãe diz ao filho: “Em você,
eu respeito e amo também seu pai”. E a mulher diz ao
homem: “Em nossos filhos, eu respeito e amo a você”.
E o homem diz à mulher: “Em nossos filhos, eu respeito
e amo a você”. Então o amor dos pais é
a continuação do amor do casal. Este tem a prioridade.
Os filhos então se sentem muito bem.
Várias famílias são segundas e terceiras famílias,
quando o homem e a mulher já eram casados anteriormente e
trouxeram filhos do matrimônio anterior. Como é então
a ordem de precedência?
Eles são primeiramente pai e mãe
de seus respectivos filhos e só depois disso constituem um
casal. Por conseguinte, seu amor como casal não pode continuar
nesses filhos, pois ambos já eram pais anteriormente. Então,
o novo parceiro deve reconhecer que o outro é, em primeiro
lugar, pai ou mãe dos respectivos filhos e que o maior amor
e a maior força dele fluem para esses filhos e neles, naturalmente,
também para o(a) parceiro(a) anterior. Só então
o amor e a força dele fluem para o(a) novo(a) parceiro(a).
Quando ambos os parceiros reconhecem isto, seu amor pode ser bem
sucedido. Quando, porém, um parceiro diz ao outro: “Eu
tenho prioridade no seu amor, e só então vêm
os seus filhos”, essa relação fica em perigo.
Essa situação não dura muito tempo.
Se eles mais tarde têm filhos em comum,
então são, em primeiro lugar, pai e mãe dos
filhos do primeiro casamento; em segundo lugar, são um casal
e em terceiro lugar, são pais de seus filhos comuns. Esta
seria a ordem, neste caso. Quando se sabe disto, pode-se resolver
ou evitar conflitos em muitas famílias.
Falei até aqui sobre algumas ordens do
amor na relação entre o homem e a mulher.
Para terminar, contarei a vocês uma história
sobre o amor. Ela é assim:
Dois modos de ser feliz
Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem
próximos dos homens, viviam numa pequena cidade dois cantores
que se chamavam Orfeu.
Um deles era o grande. Tinha inventado a cítara,
um tipo primitivo de guitarra. Quando tocava o instrumento e cantava,
toda a natureza ficava enfeitiçada em torno dele. Animais
ferozes se deitavam mansamente a seus pés, árvores
altas se inclinavam diante dele: nada podia resistir aos seus cantos.
Pelo fato de ser tão grande, ele conquistou a mulher mais
bela. E aí começou o seu declínio.
Enquanto ele ainda festejava o casamento, morreu
a bela Eurídice, e partiu-se a taça cheia que ele
erguia nas mãos. Contudo, para o grande Orfeu, a morte ainda
não foi o fim. Com a ajuda de sua arte requintada, encontrou
a entrada para o mundo subterrâneo, desceu ao reino das sombras,
atravessou o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos,
chegou vivo diante do trono do deus da morte e o comoveu com seu
canto.
A morte liberou Eurídice – porém
sob uma condição, e Orfeu estava tão feliz
que não percebeu o que se escondia por trás desse
favor. Orfeu pôs-se a caminho de volta, ouvindo atrás
de si os passos da mulher amada. Passaram ilesos pelo cão
de guarda do inferno, atravessaram o rio do esquecimento, começaram
o caminho para a luz, que já viam de longe. Então
Orfeu ouviu um grito: Eurídice tinha tropeçado. Horrorizado,
ele se voltou, viu ainda a sombra dela caindo na noite e ficou sozinho.
Esmagado pela dor, ele cantou a sua canção de despedida:
“Ai de mim, eu a perdi! Toda a minha felicidade se foi!”.
Ele próprio voltou à luz. Entretanto,
no reino dos mortos, passara a estranhar a vida. Quando mulheres
ébrias quiseram levá-lo à festa do novo vinho,
ele se recusou, e elas o despedaçaram vivo.
Tão grande foi sua desgraça, tão
inútil foi sua arte. Entretanto, todo o mundo o conhece.
O outro Orfeu era o pequeno. Era apenas um cantor
de rua, aparecia em pequenas festas, tocava para gente humilde,
alegrava um pouco e curtia isso. Como não conseguia viver
de sua arte, aprendeu um ofício comum, casou-se com uma mulher
comum, teve filhos comuns, pecou eventualmente, foi feliz de modo
comum, morreu velho e satisfeito da vida.
Entretanto, ninguém o conhece – exceto
eu!
Do original: |
Wie Liebe gelingt |
|
(cópia de palestra proferida
pelo autor, sem indicação de data) |
Tradução: |
Anand Udbuddha (Newton Queiroz), Rio de Janeiro |
Revisão: |
Mimansa Érika Farny, Caldas Novas |
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Novembro de 2000 |
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