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RENATO SHAAN BERTATE
Médico & Psicoterapeuta

PrincipalConstelação FamiliarConstelação EmpresarialRenato BertateSala de Leitura


..:: Para que o amor dê certo ::..

por Bert Hellinger


Índice:

  1. Introdução
  2. Ordem e amor
  3. Tomar a vida
  4. E algo que é próprio
  5. O mesmo
  6. Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão
  7. O tamanho da Criança
  8. Receber e exigir
  9. A equiparação
  10. O grupo familiar
  11. O direito de pertencer
  12. Os excluídos são representados
  13. A solução
  14. A imagem mágica no mundo e suas conseqüências
  15. Homens e Mulheres
  16. O vínculo
  17. A ordem de precedência
  18. Dois modos de ser feliz

 

Introdução

Muita gente julga que o amor tem o poder de superar tudo, que é preciso apenas amar bastante e tudo ficará bem. Contudo, a experiência mostra que isto não é verdade. Muitos pais são forçados a experimentar que, apesar do amor que dão a seus filhos, estes não se desenvolvem como eles esperavam. São forçados a ver seus filhos adoecerem, se drogarem ou suicidarem, apesar de todo o amor que lhes dão. Para que o amor dê certo, é preciso que exista alguma outra coisa ao lado dele. É necessário que haja o conhecimento e o reconhecimento de uma ordem oculta do amor.

Ordem e amor

O amor preenche o que a ordem abarca.
O amor é a água, a ordem é o jarro.

A ordem ajunta,
o amor flui.

Ordem e amor atuam juntos.

Como uma linda canção obedece às harmonias,
assim o amor obedece à ordem.

Assim como o ouvido dificilmente se acostuma
às dissonâncias, mesmo quando são explicadas,
assim também nossa alma dificilmente se acostuma
ao amor sem ordem.

Muita gente trata essa ordem
como se ela fosse uma opinião
que se pode ter ou mudar à vontade.

Contudo, ela nos preexiste.
Ela atua, mesmo que não a entendamos.
Não é inventada, mas encontrada.
É por seus efeitos que a descobrimos,
Como descobrimos o sentido e a alma.

Muitas dessas ordens são ocultas. Não podemos sondá-las. Elas atuam nas profundezas da alma, e freqüentemente as encobrimos com pensamentos, objeções, desejos e medos. É preciso tocar no fundo da alma para vivenciar as ordens do amor.

Tomar a vida

Disse primeiro alguma coisa sobre as ordens do amor entre pais e filhos, do ponto de vista da criança, isto é, do filho para com seus pais. Aqui menciono algumas verdades banais. Elas são tão óbvias que eu quase me envergonho de citá-las. Não obstante, são freqüentemente esquecidas.

O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão à criança, nesse mais profundo ato humano, tudo o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar, disso nada podem tirar. Na consumação do amor, o pai e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence portanto à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus pais. Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não exista. A ela, também, nada pode acrescentar.

O filho é os seus pais. Portanto, pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele diga sim a seus pais como eles são, sem qualquer outro desejo e sem nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da forma como eles são.

Esse ato de tomar a vida é uma realização muito profunda. Ele consiste em assumir minha vida e meu destino, tal como foram dados através de meus pais. Com os limites que me são impostos. Com as possibilidades que me são concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.

Essa aceitação da vida é um ato religioso. É um ato de despojamento, uma renúncia a qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através de meus pais. Essa aceitação vai muito além dos pais. Preciso olhar para além deles, para o espaço distante de onde se origina a vida e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a esse mistério e me ajusto a ele.

O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma. Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes: “Eu tomo esta vida pelo preço que me custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com seus limites e oportunidades”. Nesse exato momento, o coração se expande. Quem consegue realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.

Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude oposta, quando uma pessoa diz: “Eu gostaria de ter outros pais. Não os suporto como eles são”. Que atrevimento! Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar em paz consigo mesmo.

Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais, algo de mal poderá infiltrar-se nelas. Assim, não se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo, perdem também o que é bom. Quem assume seus pais como eles são, assume a plenitude da vida como ela é.

E algo que é próprio

Mas aqui existe ainda um mistério que não posso justificar. Com efeito, cada um experimenta que também tem em si algo de único, algo que é inteiramente próprio, irrepetível e não pode ser derivado de seus pais. Pode ser algo de leve ou de pesado, algo de bom ou de mau. Isto não podemos julgar.

Aquele que encara o mundo e sua própria vida com olhos desimpedidos pode ver que tudo o que faz obedece a uma ordem. Tudo o que ele faz ou deixa de fazer, tudo o que apóia ou combate, ele realiza porque foi encarregado de um serviço que ele mesmo não entende. Aquele que se entrega a tal serviço experimenta-o como uma tarefa ou como um chamado, que não se baseia no seu merecimento ou na sua culpa (quando é algo de pesado ou cruel). Ele foi simplesmente tomado a serviço.

Quando contemplamos o mundo desta maneira, cessam as diferenças habituais. Costumo descrever isto como os seguintes versos:

O mesmo

A brisa sopra e sussurra,
A tempestade varre e se enfurece,
E no entanto
é o mesmo vento,
o mesmo canto.

A mesma água
nos tira a sede e nos afoga,
nos carrega e nos sepulta.

Todo ser vivo se desgasta,
se mantém vivo e se aniquila.
Em ambos os casos
a mesma força o impele.

É ela que conta.

A quem servem então as diferenças?

Falei até aqui sobre a ordem fundamental da vida. Foi-nos concedido termos pais e sermos filhos. E temos também algo de próprio.

Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão

Na verdade, os pais não nos dão apenas a vida. Dão-nos também outras coisas: alimentam-nos, educam-nos, cuidam de nós e assim por diante. Convém à criança que ela tome tudo isso da forma como recebe. Quando a criança o aceita de bom grado, costuma bastar. Existem exceções que todos conhecemos mas, via de regra, é suficiente. Pode não ser sempre o que desejamos, mas é o bastante.

Nesse particular, pertence à outra ordem que o filho diga a seus pais: “Eu recebi muito. Sei que é muito, é o bastante. Eu o tomo com amor”. Com isto, o filho se sente pleno e rico, seja qual for a situação. Então ele acrescenta: “o resto, eu mesmo faço”. Isto também é um belo pensamento. Finalmente, o filho ainda pode dizer aos pais: “E agora eu os deixo em paz”.

O efeito destas frases vai muito fundo: agora o filho tem os pais e os pais têm o filho. Pais e filho estão simultaneamente separados e felizes. Os pais concluíram sua obra e a criança está livre para viver sua vida, com respeito pelos pais mas sem dependência.

Imaginem agora a situação oposta, quando o filho diz aos pais: “O que vocês me deram foi errado e foi muito pouco. Vocês ainda estão me devendo muito”. O que esse filho tem de seus pais? Nada. E o que têm dele os pais? Igualmente nada. Esse filho não consegue desprender-se dos pais. Sua censura e sua reivindicação o vinculam a eles, mas de uma forma tal que ele não os tem. Sente-se vazio, pequeno e fraco.

Esta seria a segunda lei do amor entre seus filhos e pais.

O tamanho da criança

Existe algo que os pais adquirem por mérito pessoal. Se a mãe, por exemplo, tem um dom especial – suponhamos que ela seja pintora e pinte quadros maravilhosos – então isso pertence a ela e não ao filho. Este não pode reivindicar que seja também um bom pintor, a não ser que o tenha merecido por dotação própria e dedicação pessoal.

A mesma coisa vale para a riqueza dos pais. O filho não tem o direito de reivindicá-la, como acontece no caso da herança. O que ele vier a receber será puro presente.

Isto vale ainda para a culpa pessoal dos pais. Também esta pertence exclusivamente a eles. Com freqüência, uma criança presume, por amor, tomar sobre si essa culpa, carregá-la em nome dos pais. Também isto vai contra a ordem. A criança se arroga um direito que não lhe compete. Quando os filhos querem expiar pelos pais, estão se julgando superiores a eles. Os pais passam a ser tratados como crianças, cuidadas por seus próprios filhos, que assumem o papel de pais.

Uma senhora, que recentemente participou de um grupo meu, tinha um pai cego e uma mãe surda. Os dois se completavam bem, mas a filha achava que devia cuidar deles. Quando montei a constelação de sua família, ela se comportou como se fosse uma pessoa grande. Porém sua mãe lhe disse: “Esse assunto com seu pai eu resolvo sozinha”. E o pai lhe disse: “Esse assunto com sua mãe eu resolvo sozinho. Não precisamos de você para isso”. Aquela senhora ficou muito desapontada, porque foi reduzida ao seu tamanho de criança.

Na noite seguinte, ela não conseguiu dormir. Aliás, ela sentia uma grande dificuldade para adormecer. Perguntou-me se eu podia ajudá-la. Respondi: “Quem não consegue dormir talvez esteja pensando que precisa vigiar”. Contei-lhe então a história de Borchert sobre o menino de Berlim que, ao terminar a guerra, tomava conta de um irmão morto, para que os ratos não o comessem. O menino estava esgotado, porque achava que devia ficar vigiando. Nisto, passou por ali um senhor simpático que lhe disse: “Mas os ratos dormem à noite”. E a criança adormeceu.

Na noite seguinte, aquela senhora dormiu melhor.

Portanto, a ordem do amor entre filhos e pais estabelece, em terceiro lugar, que respeitemos o que pertence pessoalmente a nossos pais e o que eles podem e devem fazer sozinhos.

Receber e exigir

A ordem do amor entre pais e filhos envolve ainda um quarto elemento. Pais são grandes, filhos são pequenos. Assim, o certo é que os pais dêem e os filhos recebam. Pelo fato de receber tanto, o filho sente a necessidade de pagar. Dificilmente suportamos quando recebemos algo sem dar algo em troca. Mas, em relação a nossos pais, nunca podemos compensar. Eles sempre nos dão muito mais do que podemos retribuir.

Alguns filhos querem escapar da pressão de retribuir e dos sentimentos de obrigação e de culpa. Dizem então: “Prefiro nada receber, assim não sinto obrigação nem culpa”. Esses filhos se fecham para os pais e nessa mesma medida, sentem-se pobres e vazios. Pertence à ordem do amor que os filhos digam: “Eu recebo tudo com amor”. Assim, irradiam contentamento para os pais, e estes percebem a felicidade deles. Esta forma de receber é simultaneamente uma compensação, porque os pais se sentem respeitados por essa aceitação amorosa. Com isso, os pais dão com um prazer redobrado.

Quando, porém, os filhos dizem: “Vocês têm que me dar mais”, o coração dos pais se fecha. Por causa dessa exigência do filho, eles não podem mais cumulá-lo de amor. É esse o efeito de tais reivindicações. Esse filho, por sua vez, mesmo quando receber alguma coisa, não conseguirá tomar o que exigiu.

A equiparação

A verdadeira equiparação entre o dar e o receber na família consiste em passar adiante o dom. Quando a criança diz: “Eu tomo tudo, e quando eu crescer, eu darei por minha vez”, os pais ficam felizes. A criança, no seu dar, não olha para trás, mas para frente. Os pais fizeram o mesmo. Eles receberam de seus pais e deram a seus filhos. Justamente pelo fato de terem recebido tanto, sentem-se pressionados a dar, e podem igualmente fazê-lo.

Até aqui, falei das ordens do amor entre filhos e pais.

O grupo familiar

Entretanto, nossa vinculação não se limita aos pais. Pertencemos também a um grupo familiar, a uma estirpe, um sistema maior. O grupo familiar se comporta como se fosse dirigido por uma instância comum e superior. Ele é comparável, a um bando de pássaros em formação. De repente, todos mudam a direção do vôo, como se tivessem sido movidos por uma força comum.

No grupo familiar, essa instância superior funciona quase como um comando interior (Gewissen), partilhado por todos e que atua de modo amplamente inconsciente. Reconhecemos as ordens do amor a que obedece pelos bons efeitos de sua observância e pelos maus efeitos de sua violação;

Quero citar, para começar, o círculo de pessoas que são abarcadas e dirigidas por esse comando interior, cuja amplitude podemos reconhecer por seus efeitos. Estão nele incluídos:

  • Todos os filhos, inclusive os que morreram ou foram abortados;
  • Os pais e todos os seus irmãos;
  • Os avós;
  • Eventualmente, algum bisavô ou até mesmo um antepassado ainda mais distante, principalmente se teve um destino mau;
  • Incluem-se ainda pessoas sem relação de parentesco, a saber, aquelas de cuja morte ou infelicidade pessoas da família se beneficiaram, como são, por exemplo, ex-parceiros dos pais e dos avós.

O direito de pertencer

No interior de cada grupo familiar vigora uma ordem básica, uma lei fundamental: todas as pessoas do grupo familiar possuem o mesmo direito de pertencer. Em muitas famílias e grupos familiares, determinados membros são excluídos. Alguns dizem, por exemplo: “Esse tio não vale nada, ele não pertence a nós”, ou então: “Dessa criança ilegítima nada queremos saber”. Com isso, recusam a essas pessoas o direito de pertencer.

Existem também os que dizem: “Sou católico, você é evangélico. Como católico, tenho mais direito de pertencer que você”. Ou inversamente: “Como protestante, tenho mais direito, porque minha fé é mais verdadeira. Você é menos crente do que eu, portanto tem menos direito de pertencer”. Isto não é hoje tão freqüente como antigamente, mas ainda acontece.

Acontece ainda, quando um filho morre prematuramente, seus pais darem o nome dele ao filho seguinte. Com isto, estão dizendo ao primeiro: “Você não pertence a família. Temos um substituto para você”. Assim o filho morto não conserva nem mesmo o próprio nome. Com freqüência, não é mais contado nem mencionado. Assim lhe é negado e retirado o direito de pertencer.

O excesso moral de alguns, que se sentem melhores e superiores a outros, na prática significa dizer-lhes: “Tenho mais direito de pertencer que você”. Ou, quando alguém condena uma pessoa ou a considera má, praticamente está lhe dizendo: “Você tem menos direito de pertencer do que eu”. “Bom” significa então: “Tenho mais direitos” e “mau” significa: “Você tem menos direitos”.

Os excluídos são representados

Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo direito de pertencer, não tolera violação. Onde isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente de compensação, que faz com que os excluídos ou desprezados sejam mais tarde representados por algum outro membro da família, sem que essa pessoa tenha consciência disso.

Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona com outra mulher e diz à própria esposa: “Não quero mais saber de você”, inventando falsas razões e cometendo injustiça contra ela e depois se casa com outra mulher e tem filhos com ela, sua primeira mulher será representada por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá o pai com o mesmo ódio da mulher rejeitada, sem ter consciência dessa representação. Aqui atua uma força secreta de compensação, para que a injustiça feita à primeira pessoa seja vingada por uma segunda.

Muitos acontecimentos infelizes na família, tais como desvios de comportamento dos filhos, doenças, acidentes e suicídios, acontecem porque um filho inconscientemente representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso se revela ainda uma outra propriedade da instância superior. Ela faz reinar justiça para com os antecessores e injustiça para com os sucessores.

A solução

A solução de tal emaranhamento torna-se possível quando a ordem básica é restabelecida, isto é, quando os excluídos voltam a ser acolhidos e respeitados. Neste caso, por exemplo, a segunda mulher deveria dizer à primeira: “Eu estou com este homem às custas de você. Eu honro isto e reconheço que lhe causei injustiça. Por favor, queira bem a mim e aos meus filhos”. Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Pois com isso está sendo reconhecido o seu direito de pertencer.

A solução exige também que a menina que imita essa mulher lhe diga interiormente: “Eu pertenço apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo que se passou entre vocês adultos não tem nada a ver comigo”. Ela diz a seu pai: “Você é meu pai e eu sou sua filha. Por favor, olhe-me como sua filha”. Então o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher nem defrontar-se com o eventual ódio ou tristeza dela. E no case de ainda amá-la, não precisará olhar sua filha como sua amante, mas apenas como sua filha. Assim a filha pode ser a filha e o pai pode ser o pai.

A criança precisa também dizer ao pai: “Esta aqui é a minha mãe. Com sua primeira mulher não tenho nada a ver. Eu tomo esta aqui como minha mãe. Ela é para mim a certa”. E então a criança precisa dizer à mãe: “Com a outra mulher não tenho nada a ver”.

De outra forma, essa criança se tornará uma rival da mãe e não poderá ser filha. Talvez a mãe veja nela inconscientemente a outra mulher. Nesse caso, mãe e filha entram em conflito como se fossem duas amantes rivais. Mas quando a criança diz: “Você é minha mãe e eu sou sua filha; com a outra não tenho nada a ver; eu tomo você como minha mãe”, então a ordem é restabelecida.

Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados. Quando, por exemplo, numa família, um filho morre prematuramente, os filhos sobreviventes carregam muitas vezes um sentimento de culpa pelo fato de estarem vivos enquanto seu irmão está morto. Acreditam que, por estarem vivos, possuem uma vantagem sobre o irmão falecido. Então querem compensar isto, por exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo querendo morrer, sem que saibam por quê.

Aqui, pertence à ordem do amor que cada um diga interiormente ao irmão morto: “Você é meu irmão (minha irmã). Eu respeito você como meu irmão (minha irmã). Você tem um lugar em meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da forma como lhe aconteceu, e digo sim ao meu destino, da forma como me tocou”. Estão a criança morta é respeitada e a outra pode permanecer viva sem sentimento de culpa.

A imagem mágica do mundo e suas conseqüências

Por trás da necessidade de compensação, que faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a saber, que posso salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que eu também tome algo de pesado sobre mim. É o caso da criança que diz à mãe gravemente doente: “Antes adoeça eu do que você. Antes morra eu do que você”. Ou ainda, quando a mãe quer abandonar a vida, um filho se suicida, para que ela possa ficar viva.

Um exemplo disto é a magreza compulsiva. O anoréxico vai se tornando cada vez menor, desaparece, por assim dizer, até a morte. Em sua alma, essa criança está dizendo a seu pai ou a sua mãe: “Antes desapareça eu do que você”. Aqui atua um amor profundo. Mas quando a criança morre, qual é o efeito desse amor? Ele é totalmente inútil.

Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão, faço que olhe nos olhos do pai ou da mãe e diga: “Antes desapareça eu do que você”. Quando os encara nos olhos a ponto de realmente os ver, ela não consegue dizer essa frase, porque percebe que o pai ou a mãe não aceitará isso dela. È que o amor mágico desconhece o fato de que também a outra pessoa ama e recusaria isso, independentemente da inutilidade de tal amor.

Quando a mãe morre ao dar à luz um filho, é muito difícil para essa criança tomar a sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos e dizer: “Mamãe, mesmo por este alto custo eu tomo esta vida e faço algo de bom com ela em sua memória. Você precisa saber que não foi em vão”. Isto é amor, num nível mais elevado. Isto exige o abandono da fantasia mágica de poder interferir no destino de outra pessoa e mudá-lo. Exige a passagem de um amor que faz adoecer para um amor que cura.

A fantasia do amor mágico está associada a uma presunção, a um sentimento de poder e de superioridade. A criança realmente acha que, com sua doença e sua morte, pode salvar da morte a outra pessoa. Renunciar a essa idéia exige humildade.

Até aqui falei da ordem do amor na relação entre filhos e pais.

Homens e Mulheres

Quero também dizer mais alguma coisa sobre a ordem do amor na relação do casal. Muitos se envergonham disso, como se fosse algo que devesse ser ocultado. Aquilo que diferencia os homens das mulheres, que realmente os diferencia, é escondido. Ou, por outras palavras, é protegido; pois é o lugar onde cada um é mais vulnerável. É o lugar próprio da vergonha. Vergonha significa, neste contexto, que eu guardo alguma coisa, para que nada de mau aconteça. E é o lugar onde nos sentimos mais entregues.

Alguns falam depreciativamente do instinto sexual e esquecem que ele é a força real e mais profunda, que une e conserva tudo, que toma cada pessoa a seu serviço, sem que ela possa se defender. Pela pura razão, ninguém se casaria ou teria filhos. Só esse instinto consegue isso. É através dele que estamos em sintonia mais profunda com a alma do mundo. Esse instinto é o que existe de mais espiritual. Todo entendimento e toda consideração racional empalidecem diante da força que atua por detrás desse instinto.

A ordem do amor entre homem e mulher exige portanto, em primeiro lugar, que o homem admita que lhe falta a mulher e que ele, por si só, jamais poderá alcançar o que ela tem. Exige igualmente que a mulher admita que lhe falta o homem, e que ela, por si só, jamais poderá alcançar o que ele tem. Então ambos se experimentam como incompletos e o admitem.

Quando o homem admite que precisa da mulher e que só se torna homem através dela, e quando a mulher admite que precisa do homem e só se torna uma mulher através dele, então essa carência os liga um ao outro, justamente pelo fato de a admitirem. Então o homem recebe o feminino como presente da mulher, e a mulher recebe o masculino como presente do homem.

Imaginem agora um homem que desenvolve em si o feminino e uma mulher que desenvolve em si o masculino, como muitos consideram ideal. Se esse homem quiser se ligar a essa mulher, qual será a profundidade dessa relação? No fundo, eles não precisam um do outro. Inversamente, quando o homem renuncia ao feminino e a mulher ao masculino, então eles precisam um do outro e isto os mantém juntos.

O vínculo

Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente como tais, a consumação de seu amor cria um vínculo. Esse vínculo é indissolúvel. Isto nada tem a ver com a doutrina moral da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio. A realização do amor cria uma ligação, independentemente do casamento e de qualquer rito externo.

A existência de uma tal ligação é percebida pelos seus efeitos. Por exemplo, o homem que se separa levianamente de uma parceira a quem estava vinculado pela consumação do amor, via de regra não conseguirá conservar outra parceira num novo relacionamento. Pois esta percebe o vínculo dele com a parceira anterior, e não ousa assumi-lo plenamente. Quando um homem abandona uma mulher e se casa outra vez, sua segunda mulher talvez se considere melhor que a primeira e diga: “Agora eu o tenho para mim”. Ela entretanto o perderá. Nesse próprio triunfo o perde, pois reconhece o vínculo desse homem com sua primeira mulher. Então ele não o assumirá completamente. Nas constelações familiares, pode-se perceber que uma segunda mulher se distancia um pouco do homem. Ela não ousa colocar-se perto dele, pelo fato de não ser sua primeira ligação, mas a segunda.

A profundidade de um tal vínculo pode ser avaliada pelo seu efeito. A separação do primeiro amor é a mais difícil de se conseguir. É a mais dolorosa. Quando uma segunda ligação se desfaz, a dor é menor. Numa terceira, é ainda menor.

Essa ligação não é, porém, sinônimo de amor. O amor pode ser pequeno e o vínculo profundo. Inversamente, o amor pode ser profundo e a ligação pequena. O vínculo se origina do ato sexual. Por isto, ele também nasce por ocasião de um incesto ou um estupro. Para que mais tarde uma nova ligação seja possível, é preciso que a primeira seja corretamente resolvida. Ela é resolvida quando é reconhecida e quando é honrado o respectivo parceiro. Quem amaldiçoa o primeiro vínculo impede uma ligação ulterior.

A ordem de precedência

O fruto do amor entre o homem e a mulher são os filhos. Também aqui é importante observar uma ordem do amor, uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta pelo começo. Isto significa que o que vem antes tem, via de regra, precedência sobre o que vem depois. Numa família, existe primeiro o casal homem-mulher. Seu amor funda a família. Por isso, seu amor como homem e mulher tem precedência sobre tudo o que vem depois: por conseguinte, sobre seu amor de pais por seus filhos. Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos atraem sobre si toda a atenção. Então os pais não são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto, os filhos não se sentem bem.

Quando a relação do casal tem prioridade, o pai diz a seu filho: “Em você, eu respeito e amo também sua mãe”. E a mãe diz ao filho: “Em você, eu respeito e amo também seu pai”. E a mulher diz ao homem: “Em nossos filhos, eu respeito e amo a você”. E o homem diz à mulher: “Em nossos filhos, eu respeito e amo a você”. Então o amor dos pais é a continuação do amor do casal. Este tem a prioridade. Os filhos então se sentem muito bem.
Várias famílias são segundas e terceiras famílias, quando o homem e a mulher já eram casados anteriormente e trouxeram filhos do matrimônio anterior. Como é então a ordem de precedência?

Eles são primeiramente pai e mãe de seus respectivos filhos e só depois disso constituem um casal. Por conseguinte, seu amor como casal não pode continuar nesses filhos, pois ambos já eram pais anteriormente. Então, o novo parceiro deve reconhecer que o outro é, em primeiro lugar, pai ou mãe dos respectivos filhos e que o maior amor e a maior força dele fluem para esses filhos e neles, naturalmente, também para o(a) parceiro(a) anterior. Só então o amor e a força dele fluem para o(a) novo(a) parceiro(a). Quando ambos os parceiros reconhecem isto, seu amor pode ser bem sucedido. Quando, porém, um parceiro diz ao outro: “Eu tenho prioridade no seu amor, e só então vêm os seus filhos”, essa relação fica em perigo. Essa situação não dura muito tempo.

Se eles mais tarde têm filhos em comum, então são, em primeiro lugar, pai e mãe dos filhos do primeiro casamento; em segundo lugar, são um casal e em terceiro lugar, são pais de seus filhos comuns. Esta seria a ordem, neste caso. Quando se sabe disto, pode-se resolver ou evitar conflitos em muitas famílias.

Falei até aqui sobre algumas ordens do amor na relação entre o homem e a mulher.

Para terminar, contarei a vocês uma história sobre o amor. Ela é assim:

Dois modos de ser feliz

Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem próximos dos homens, viviam numa pequena cidade dois cantores que se chamavam Orfeu.

Um deles era o grande. Tinha inventado a cítara, um tipo primitivo de guitarra. Quando tocava o instrumento e cantava, toda a natureza ficava enfeitiçada em torno dele. Animais ferozes se deitavam mansamente a seus pés, árvores altas se inclinavam diante dele: nada podia resistir aos seus cantos. Pelo fato de ser tão grande, ele conquistou a mulher mais bela. E aí começou o seu declínio.

Enquanto ele ainda festejava o casamento, morreu a bela Eurídice, e partiu-se a taça cheia que ele erguia nas mãos. Contudo, para o grande Orfeu, a morte ainda não foi o fim. Com a ajuda de sua arte requintada, encontrou a entrada para o mundo subterrâneo, desceu ao reino das sombras, atravessou o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos, chegou vivo diante do trono do deus da morte e o comoveu com seu canto.

A morte liberou Eurídice – porém sob uma condição, e Orfeu estava tão feliz que não percebeu o que se escondia por trás desse favor. Orfeu pôs-se a caminho de volta, ouvindo atrás de si os passos da mulher amada. Passaram ilesos pelo cão de guarda do inferno, atravessaram o rio do esquecimento, começaram o caminho para a luz, que já viam de longe. Então Orfeu ouviu um grito: Eurídice tinha tropeçado. Horrorizado, ele se voltou, viu ainda a sombra dela caindo na noite e ficou sozinho. Esmagado pela dor, ele cantou a sua canção de despedida: “Ai de mim, eu a perdi! Toda a minha felicidade se foi!”.

Ele próprio voltou à luz. Entretanto, no reino dos mortos, passara a estranhar a vida. Quando mulheres ébrias quiseram levá-lo à festa do novo vinho, ele se recusou, e elas o despedaçaram vivo.

Tão grande foi sua desgraça, tão inútil foi sua arte. Entretanto, todo o mundo o conhece.

O outro Orfeu era o pequeno. Era apenas um cantor de rua, aparecia em pequenas festas, tocava para gente humilde, alegrava um pouco e curtia isso. Como não conseguia viver de sua arte, aprendeu um ofício comum, casou-se com uma mulher comum, teve filhos comuns, pecou eventualmente, foi feliz de modo comum, morreu velho e satisfeito da vida.

Entretanto, ninguém o conhece – exceto eu!

 

Do original:

Wie Liebe gelingt

 

(cópia de palestra proferida pelo autor, sem indicação de data)

Tradução:

Anand Udbuddha (Newton Queiroz), Rio de Janeiro

Revisão:

Mimansa Érika Farny, Caldas Novas

 

Novembro de 2000

 

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